10 novembro 2010

Há dias... Há noites... (que não tenho ideias livres!)

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Há dias que não tenho ideias livres.
Nem vontade.
Nem ideias.
Nem liberdade.
Nem dias.
Encarcero-me na desilusão dos dias felizes, porque o foram e já não o são.
Apagaram-se com o tempo, num silêncio rude. Impotente. Dissidente.
As imagens desbotaram, nem a cor, nem o preto e branco carimbaram a cor sépia do tempo.
E de carimbos percebo bem, aqueles que me marcam a pele em cicatrizes intempestivas.
Lembro-me bem de duas bocas acostadas, sedentas do hálito quente e sorumbático, saboreado segundo o despertar inflamado da paixão.
Como adoro estes aplausos de alma!
Serei perfeita ou imperfeita nessa livre vontade?

Viajo demasiadas vezes no tempo.
Entro e saio no carrossel… após mais uma volta e outra, e outra, e outra.
A partida e a chegada são semelhantes, diria iguais, dado o percurso incluso, se bem que as motivações são completamente diferentes. Passa-se da euforia aos pontos finais…
Pontos em que se perde…
Pontos que se cruzam…
Pontos castradores…
E, sem qualquer alternativa, voluntariamente, rendo-me e entrego os pontos.
Já não sei ser serpente, nem corromper-me com o meu próprio veneno, que outrora me deu vida e me atirava, nem que fosse aos pontapés, para o mundo.
Ninguém esquece, o quanto esse veneno é atroz e eficaz.
Em êxtase, em desespero resistir-lhe é impossível.
Que o negue, quem for capaz…!

Por esta altura, não sei muito bem qual a minha circunstância neste mundo…
O nível de desfasamento da realidade é gigantesco.
Em última instância, acho que estou por aqui a tentar remendar o sol…
Ou os pedaços de luz que me seduzem os sentidos…
Concentro-me nos sorrisos que iluminam o meu sorriso...
Penetro o olhar na beleza dos momentos parcos e incomuns.
Fecho os olhos e abraço a vida, adormecendo como uma criança depois de um longo dia de recreio.
Adormecida, espero que o teu veneno me entranhe e me arrebate, numa melodia soturna e apaixonada.
Apenas essa poção me fará viver de esperança num ritual de encantamento e de felicidade…
Há noites que não tenho ideias livres.
Apenas vontade de amar incondicionalmente.
Apenas ideias e ideais de satisfação.
Apenas liberdade para sermos felizes.
Se calhar, apenas noites,
Apenas boas noites para serem vividas e partilhadas em ambiente metafísico.

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